Autismo: alerta para casos leves

Dia Mundial da Conscientização do Autismo

Nesses últimos anos, reportagens sobre o autismo tem aparecido nos meios de comunicação com cada vez mais frequência. Aos poucos, o tema foi deixando o território do desconhecido e ganhando espaço no cotidiano, em conversas e redes sociais. Personagens autistas, da ficção e da vida real, surgiram em filmes e séries de TV, materializando as muitas caras e múltiplas facetas que o Transtorno do Espectro Autista pode exibir. Finalmente, vemos o reconhecimento de que é algo muito mais próximo de nós do que pensávamos. Não só os casos mais graves que povoam nosso imaginário, mas talvez o garoto nerd da escola, o senhor da casa ao lado, esquisito e sistemático, a prima com falas muitas vezes fora do contexto, que não se encaixa socialmente.

Dar visibilidade a uma condição que atinge de 1-2% da população – e que permaneceu mal compreendida por tanto tempo – tem permitido que cada vez mais pessoas conheçam o assunto e que os autistas tenham maior acesso a atendimentos terapêuticos. Munidas de informação, as famílias podem exigir melhores serviços de diagnóstico e tratamento e leis para garantir inclusão social e educacional. Passos essenciais para se caminhar em direção a um cenário social no qual as dificuldades dos autistas possam ser acomodadas e seus talentos e habilidades possam ser reconhecidos e valorizados.

Uma consequência direta desse avanço é que profissionais da saúde e educação que lidam com crianças tem ficado mais alertas. Sabendo da importância da intervenção precoce, saem em busca de um conhecimento que, via de regra, não fez parte da sua formação: como saber se uma criança apresenta algum sinal que indique risco para autismo?

É claro que nenhum sinal isolado leva a um diagnóstico. Todo o contexto do comportamento da criança tem que ser levado em consideração. Quando houver uma suspeita, é necessário que a criança seja avaliada por um profissional experiente na área.

Apenas para uma referência, o CDC (órgão americano de atenção ao controle e prevenção de doenças) apresenta uma lista de sinais de alerta para o autismo.

  • Não responder ao próprio nome aos 12 meses;
  • Não apontar objetos sinalizando interesse aos 14 meses;
  • Não brincar de faz de conta aos 18 meses;
  • Evitar contato ocular e preferir ficar sozinho;
  • Dificuldades em entender sentimentos de outra pessoa ou falar dos próprios sentimentos;
  • Atraso da fala ou das habilidades de linguagem;
  • Ecolalia;
  • Falas fora do contexto;
  • Reações emocionais intensas com pequenas mudanças;
  • Interesses obsessivos;
  • Estereotipias motoras;
  • Reações incomuns a sons, imagens/luz, cheiros, tato.

Casos mais leves costumam ser mais difíceis de ser identificados – e portanto, muitas vezes não recebem a atenção que merecem. Não há um comprometimento óbvio, as características comportamentais são mais sutis e podem ser confundidas com traços de personalidade ou mesmo com outros problemas como TDAH, TOC ou transtornos do humor, por exemplo. Geralmente a família passa por uma verdadeira peregrinação até encontrar um profissional experiente que saiba fazer o diagnóstico. E este período costuma ser de muita angústia e exaustão para os pais, não só por ter que lidar com comportamentos e situações que não conseguem entender, como também por enfrentar as acusações (veladas ou não) de que tudo não passa de falta de limites ou de afeto.

Portanto, além dos sinais de alerta do CDC, o encaminhamento desses casos exige por um olhar mais apurado e uma observação mais cuidadosa. Devem ser valorizados dificuldades não tão aparentes, como falta de habilidade para iniciar ou manter relacionamentos sociais (principalmente com pessoas da mesma idade), fixação em assuntos restritos ou atípicos, rigidez de pensamento (dificuldade em entender a perspectiva dos outros, de considerar outros pontos de vista ou outras maneiras de se realizar alguma atividade), apego anormal à rotina e dificuldades na leitura social (no entendimento dos significados de uma situação social).

É um olhar que depende de informação atualizada e experiência. Para que nunca mais algum pai ou mãe tenha suas preocupações invalidadas por uma explicação tão rasa e equivocada de que, se a criança olha nos olhos e abraça as pessoas, isso não pode ser autismo.

 

Texto de Dra Raquel Del Monde

Dra Raquel é Pediatra e Especialista em Psiquiatria Infantil.

 

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